singularity

25/07/2012 –  Yamamoto Tsunetomo

When something is said to you by the master, whether it is for your good or bad fortune, to withdraw in silence shows perplexity. You should have some appropriate response. It is important to have resolution beforehand.
Moreover, if at the time that you are asked to perform some function you have deep happiness or great pride, it will show exactly as that on your face. This has been seen in many people and is rather unbecoming. But another type of person knows his own defects and thinks, “I´m a clumsy person but I´ve been asked to do this thing anyway. Now how am I going to go about it? I can see that this is going to be much trouble and cause for concern”. Though these words are never said, they will appear on the surface. This shows modesty.
By inconsistency and frivolity we stray form the Way and show ourselves to be beginners. In this we do much harm.

12/07/2012 – Yamamoto Tsunetomo

A certains swordsman in his declining years said the following:

In one´s life, there are levels in the pursuit of study. In the lowest level, a person studies but nothing comes of it, and he feels that both he and others are unskillful. At this point he is worthless. In the middle level he is still useless but is aware of his own insufficiencies and can also see the insufficiencies of others. In a higher level he has pride concerning his own ability, rejoices in praise from others, and laments the lack of ability in his fellows. This man has worth. In the highest level a man has the look of knowing nothing.
These are the levels in general. But there is one transcending level, and this is the most excellent of all. This person is aware of the endlessness of entering deeply into a certan Way – 道 – and never thinks of himself as having finished. He truly knows his own insufficiencies and never in his whole life thinks that he has succeeded. He has no thoughts of pride but with self-abasement knows the Way to the end. It is said that Master Yagyu once remarked: “I do not know the way to defeat others, but the way to defeat myself”.
Throughout your life advance daily, becoming more skillful than yesterday, more skillful than today. This is never-ending.

06/2012 – Mushin

A cada passo da sua jornada, ele aprendia coisas que antes desconhecera. O mundo parecia-lhe diferente. Seu coração batia como que enfeitiçado. E ele mirava o sol, sempre que este se levantava acima das montanhas cobertas de florestas ou se punha atrás da longínqua praia orlada de palmeiras. Contemplava a ordem dos astros no firmamento noturno e o crescente da lua, a singrar, feito barco, pelo espaço azul. Olhava árvores, estrelas, animais, nuvens, arcos-íris, rochedos, ervas, flores, arroios e rios. Percebia o orvalho da madrugada, a cintilar nos galhos dos arbustos, e também o gris esmaecido de serras distantes. Cantavam os pássaros, zumbiam as abelhas. Nos arrozais ressoava o argentino zunir da aragem. Tudo aquilo, esse sem-número de formas e cores, existira sempre. Em todos os tempos houvera o murmúrio de regatos e o zumbir de abelhas, mas outrora esses fenômenos tinham-se afigurado como um véu falaz, passageiro, estendido diante de seus olhos e que apenas merecesse desconfiança; um véu cujo destino fosse ser penetrado e destruído pelo pensamento, já que nada disso era essencial e a realidade se encontrava além dos objetos visíveis. Agora, porém, seu olhar libertado atinha-se a este lado das coisas, acolhendo e identificando o que se lhe deparava. Procurava radicar-se neste mundo. Já não ia em busca do essencial. Já não visava o além. Como era belo o mundo, para quem o olhasse assim, ingenuamente, simplesmente, sem nada procurar nele! Como eram lindos os astros e a lua, os arroios e as ribeiras, as florestas e os penedos, a cabra e o besouro dourado, a flor e a borboleta! Era prazeroso e ameno passear assim pelo mundo, candidamente, como quem acabasse de despertar e se abrisse a tudo quanto o rodeasse, sem o menor receio. Diferente era o sol que ardia por cima da sua cabeça; diferente, a frescura da sombra do mato; diferente, o sabor da água de regato e cisterna; diferente, o aroma de abóboras e bananas. Breves se tornavam os dias; fugazes as noites. Cada hora voava, impelida qual veleiro no mar, e sob as velas achava-se o casco cheio de tesouros.  Tudo isso existira em todos os tempos, e todavia escapara a ele. Não estivera presente. Nesse instante, porém, estava presente, fazia parte dos acontecimentos. Pelos seus olhos passavam luzes e sombras. Os astros e a lua entravam no seu coração.

01/02/2012 – Sidarta – Sobre coisas e palavras

As palavras deturpam sempre o sentido arcano. Todas as coisas alteram-se, logo que lhes pronunciamos o nome. Então se tornam levemente falsas e ridículas… Pois é. Mas, olha, até isso acho bem feito. Aprovo inteiramente e com o maior prazer o fato de que aquilo que para uma pessoa é um tesouro e uma grande sabedoria represente para os demais homens rematada tolice. Govinda ouviu-o em silêncio. Após uma pausa, perguntou timidamente: – Por que me falaste da pedra?
– Foi sem intenção. Ou talvez quisesse dizer que amo de fato a pedra e o rio e todas essas coisas que contemplamos e das quais muito podemos aprender. Sei amar uma pedra, ó Govinda, e também uma árvore ou um pedacinho de sua casca. São coisas, e coisas podem ser amadas. Mas não posso amar palavras. Por isso não me servem as doutrinas. Não têm nem dureza nem maciez, não têm cores nem arestas, nem cheiro nem sabor, nem origem nem destino. Não têm nada a não ser palavras. Talvez seja esta a razão por que não encontres a paz: o excesso de palavras. Pois, Govinda, também a redenção e a virtude, o Sansara e o Nirvana são meras palavras. Não existe coisa alguma que seja Nirvana. O que existe é apenas a palavra Nirvana. Respondeu Govinda: – Não, não meu amigo, Nirvana não é apenas uma palavra. É uma idéia. Mas Sidarta prosseguiu: – Uma idéia. Pois não. Confesso-te, meu caro, que não faço muita distinção entre palavras e idéias. Para falar com toda a franqueza: não ligo grande importância às próprias idéias. As coisas têm para mim muito maior significado. Nessa balsa aí, para dar-te um exemplo, houve um homem, meu predecessor e meu mestre, que durante longos anos, à sua maneira singela, cria no rio e em nada mais. Percebera que a voz do rio se dirigia a ele. Dela aprendia, Ela educava-o e instruía-o. O rio parecia-lhe um deus. Por muito tempo ignorava esse homem que qualquer aragem, qualquer nuvem, ou ave, ou besouro são igualmente divinos e sabem tanto, podem ensinar-nos tanto quanto aquele adorado rio. Ora, quando esse santo se encaminhou à selva, sabia tudo, sabia mais do que tu e eu, sem professor, sem livros, unicamente por ter acreditado no rio.

Replicou Govinda: – Mas, dize-me: aquilo que chamas de coisas é mesmo algo real, algo essencial? Não será apenas uma ilusão da Maia, simples miragem, pura aparência? Essa tua pedra, tua árvore, teu rio, são ou não são realidades?

– Esse problema – disse Sidarta – não me preocupa tampouco. Quanto a mim, as coisas podem ser mera aparência, uma vez que, neste caso, também eu sou aparência, e assim serão elas sempre meus iguais. Eis o que as torna para mim tão caras e venerandas: são como eu. Por isso posso amá-las. E com isso te comunico uma doutrina que te fará rir, ó Govinda: tenho para mim que o amor é o que há de mais importante no mundo. Analisar o mundo, explicá-lo, menosprezá-lo, talvez caiba aos grandes pensadores. Mas a mim me interessa exclusivamente que eu seja capaz de amar o mundo, de não sentir desprezo por ele, de não odiar nem a ele nem a mim mesmo, de contemplar a ele, a mim, a todas as criaturas com amor, admiração e reverência.

03-08 de Janeiro, 2012 – Sidarta

Tímido, com lágrimas nos olhos, o menino assistia aos funerais da mãe. Sombrio,

arisco, ouvia as palavras de Sidarta, quando este o tratava de filho e lhe dava

as boas-vindas na choupana de Vasudeva. Com o rosto pálido, o pequeno passava

dias inteiros junto à sepultura da defunta. Recusava-se a comer. Franzia o

cenho. Mantinha o coração inacessível. Obstinava-se, revoltado contra o Destino.

Sidarta não insistia com ele. Respeitava-lhe o luto e deixava-o fazer o que

queria. Compreendia muito bem que o garoto não o conhecia e por isso não podia

amá-lo como a um pai. Pouco a pouco, porém dava-se conta de que aquele rapazinho

de onze anos era uma criança mimada, apegada à mãe, criada na opulência,

acostumada a comer pratos finos, a dormir numa cama fofa e mandar nos serviçais.

Via que uma pessoa entristecida, habituada ao luxo, simplesmente não podia

conformar-se de um dia para o outro com a pobreza e com um ambiente estranho.

Não lhe impunha os seus desejos. Freqüentemente fazia o trabalho que cabia ao

filho e sempre lhe oferecia os melhores bocados. Esperava conquistá-lo

lentamente, pela paciência e pela gentileza. Qualificara-se a si mesmo de rico e

feliz, quando o menino começara a morar em seu lar. Mas o tempo passava e o

menino continuava sombrio e renitente, mostrando-se sempre teimoso e altivo. Não

queria absolutamente trabalhar. Não demonstrava o menor respeito aos dois

anciãos. Pilhava o pomar de Vasudeva. Eis que Sidarta começou a compreender que

o filho não lhe trouxera ventura e paz, senão mágoas e preocupações. E, todavia,

o amava. Preferia mágoas e carinhosas preocupações à felicidade e às alegrias

que gozara antes da chegada do garoto. Desde que o jovem Sidarta convivia com

eles na cabana, os velhos haviam distribuído entre si as fainas cotidianas.

Vasudeva tornara a tomar conta da balsa, sozinho, ao passo que Sidarta se

dedicava ao trabalho nos campos e às lides domésticas, a fim de ficar perto do

filho. Durante muito tempo, meses a fio, Sidarta prosseguiu esperando que o

menino o compreendesse, que aceitasse o seu amor, que talvez o retribuísse.

Meses a fio, Vasudeva nutria a mesma esperança. Aguardava em silêncio,

observando o pai e o filho. Cena feita, quando o menino Sidarta mais uma vez

magoara o pai com sua obstinação e seus caprichos, chegando a quebrar

propositadamente duas tigelas de arroz, Vasudeva aproveitou a noite para falar

com o amigo em separado. – Não me leves a mal – disse – que eu trate dessas

coisas. Faço-o como teu amigo. Vejo como te atormentas. Noto que andas

tristonho. Meu caro, teu filho te preocupa, e a mim, me preocupa também. Aquele

passarinho está acostumado a viver outra vida, num ninho diferente, Não

abandonou a riqueza e a cidade por tédio e nojo, como tu o fizeste. Teve de

largar tudo isso a contragosto. Olha, meu amigo, já consultei o rio. Consultei-o

muitas vezes. Mas o rio limita-se a rir, rir de mim, de mim e de ti também, dá

gargalhadas em face da nossa tolice. A água corre para a água. A juventude

procura a juventude. Teu filho não se encontra no lugar que lhe convém. Seria

bom se tu também consultasses o rio. Faze o que ele te sugerir. Emocionado,

Sidarta examinou o rosto do amigo, esse rosto em cujas inúmeras rugas se

escondia inalterável serenidade. – Mas, serei capaz de separar-me dele? –

respondeu em voz baixa. – Concede-me mais um pouco de tempo, meu caro! Estás vendo

como luto, como me esforço por conquistar o coração do menino, pelo carinho, pela

paciência, pela doçura. É assim que quero aliciá-lo. Tomara que o

rio um dia dirija a sua palavra também a ele. Esse menino tem a mesma vocação

que nós. O sorriso de Vasudeva tornou-se ainda mais caloroso. – Ah, sim ! Também

ele tem vocação. Também ele é parte da vida eterna. Mas que sabemos nós, tu e

eu, do destino que o aguarda, do caminho que lhe caberá trilhar, das ações que

ele deverá realizar e dos sofrimentos que o acometerão? Os desgostos que lhe

estão reservados não serão pequenos, uma vez que o coração desse rapaz é duro e

altivo. Pessoas da sua espécie têm de padecer muitas amarguras, já que erram

freqüentemente, cometem graves pecados e carregam muita culpa na sua

consciência. Dize-me uma coisa, meu amigo: não dás nenhuma educação a teu filho?

Não lhe impões a tua vontade? Não o surras nunca ? Não o castigas? – Não,

Vasudeva, não faço nada disso. – Pois é ! Não o obrigas a nada; não bates nele;

não lhe dás nenhuma ordem, porque sabes que a meiguice é mais forte do que a

dureza e a água mais forte do que o rochedo. Muito bem! Aprovo a tua conduta.

Mas não te enganas a ti mesmo, quando pensas que não exerces coação alguma sobre

ele e não lhe infliges nenhum castigo? Não o agrilhoas pelo teu carinho? Não o

humilhas todos os dias e ainda lhe amarguras a vida, graças à tua bondade e

paciência? Não obrigas esse menino soberbo, mimado, a viver numa cabana junto com dois

velhos comedores de bananas, para os quais o arroz já representa um

quitute e cujo coração gasto, sereno, pulsa em outro ritmo que o dele? Não

resulta tudo isso em constrangimento e punição? Consternado, Sidarta baixou os

olhos. Em seguida murmurou: – Que achas que devo fazer? E Vasudeva tomou: –

Leva-o à cidade. Deixa-o na casa que pertencia à mãe. Ali haverá ainda alguns

criados aos quais poderás entregá-lo. E se não houver mais ninguém, procura um

professor para ele, não por causa do ensino, mas para que a criança possa

conviver com outros garotos, e com as meninas, num ambiente que lhe convier.

Nunca pensaste nesta solução? – Espiaste o fundo do meu coração – respondeu

Sidarta melancolicamente. – Muitas vezes pensei nisso. Mas olha! Como posso

abandonar ao mundo esse menino, em cuja alma não há nenhuma ternura? Não se

tornará ele um presunçoso? Não se perderá em prazeres e ambições de poder? Não

repetirá todos os erros do pai? Não se extraviará irremediavelmente no Sansara?

O rosto do balseiro iluminou-se num sorriso radiante. Acariciou delicadamente o

braço de Sidarta e disse: – Consulta o rio a esse respeito, meu amigo! Não estás

ouvindo como ele se ri? Achas realmente que cometeste as tuas tolices, a fim de

poupá-las a teu filho? Julgas-te capaz de proteger o pequeno contra o Sansara?

De que modo? Por meio de ensinamentos, de preces, de admoestações? Ora, meu

querido, esqueceste por completo uma história que me contaste aqui mesmo, em

outra ocasião; a edificante história de um filho de brâmane que se chamava

Sidarta? Quem resguardou esse Sidarta do Sansara, do pecado, da avareza, da

insensatez? A piedade do pai, as exortações dos mestres, a própria erudição, as

pesquisas que ele fazia – nada disso conseguiu servir-lhe de esteio. Que pai,

que mestre poderia evitar que Sidarta vivesse a sua vida sujando-se com ela,

caindo em culpa e bebendo sozinho a poção amarga, antes de descobrir o seu

caminho pelas suas próprias forças? Pensas, meu caro, que alguém possa escapar à

busca desse caminho? Talvez teu filhinho, porque o amas e desejas isentá-lo de

mágoas, dores e desilusões? Mas, mesmo que morras por ele dez vezes, não

lograrás alterar nenhuma parcela do destino que o aguarda! Nunca na vida,

Vasudeva falara tanto. Sidarta agradeceu-lhe calorosamente. Acabrunhado, entrou

na cabana. Por muito tempo, não conciliou o sono. Vasudeva não lhe dissera nada

que ele mesmo não soubesse, que não lhe tivesse preocupado o espírito uma e

outra vez. Mas o que esse saber lhe aconselhava era inexeqüível. Mais forte do

que o saber era o amor ao menino, era a ternura paterna, o medo de largar o

filho. Jamais lhe ocorrera perder-se a tal ponto por alguma coisa, dedicar

tamanho amor a criatura alguma, entregar-se tão cegamente, tão dolorosa, tão

inutilmente e, apesar disso, com tanta alegria! Sidarta era incapaz de seguir o

conselho do amigo. Não podia separar-se do filho. Permitia que este lhe desse

ordens. Suportava-lhe o desdém. Permanecia calado, a esperar. Diariamente

reiniciava a silenciosa luta da gentileza, a guerra surda da paciência. Também

Vasudeva conservava-se mudo, limitando-se a observá-los com bondade, prudência e

tolerância. Em matéria de paciência, os dois anciãos eram mestres. Certa feita,

quando a fisionomia do rapaz lhe recordava mais do que nunca a de Kamala,

Sidarta lembrou-se subitamente de uma frase que ela lhe dissera, havia muito

tempo, nos dias da sua mocidade: “Tu não sabes amar” – afirmara ela, e Sidarta

lhe dera razão. Então se comparara a si com um astro e qualificara os homens

tolos de folhas mortas. E, todavia, sentira que aquela frase continha um quê de

censura. Realmente, nunca lhe fora possível abandonar-se, entregar-se por

inteiro a outra criatura, a ponto de esquecer-se de si mesmo e de cometer

bobagens por amor de outrem. Nunca, nunca pudera agir dessa forma e como lhe

parecia naquele instante, era essa a grande diferença que o apartava dos homens

tolos. Mas, desde que surgira o filho, também ele, Sidarta, transformara-se num

homem tolo, que sofria por causa de outra pessoa, que se agarrava a um ente

querido, que andava perdido de amor, que, devido a essa afeição, se convertera

num imbecil. A essa altura, acometia-o, embora tardiamente, pela primeira vez na

vida, aquela paixão, a mais forte, a mais estranha de todas, fazendo-o sofrer,

sofrer miseramente e, mesmo assim, deixando-o sumamente feliz, dando-lhe a impressão

de estar renovado e enriquecido. Certamente, percebia Sidarta, esse

amor, esse abandono cego ao filho, não passava de uma paixão, que havia nela

algo muito humano, que era Sansara, fonte turva, água sombria. Mas, ao mesmo

tempo sabia muito bem que aquilo tinha valor, era necessário, emanava do seu

próprio ser. Cabia-lhe expiar também essa delícia, saborear também esses

tormentos, cometer também essas tolices. O filho, por sua vez, permitia que o

pai se comportasse estupidamente. Tolerava que o velho se empenhasse em

conquistá-lo. Humilhava-o diariamente pelos seus caprichos. Aquele pai não tinha

nada que o encantasse e ainda menos que lhe inspirasse temor. Era um homem

bondoso, o tal pai, um bonachão meigo e brando. Podia ser que fosse um homem

muito piedoso, talvez um santo. Mas nenhuma dessas qualidades era suscetível de

atrair um menino. Enfadonho, sim, parecia-lhe aquele pai, que o mantinha preso

àquela mísera cabana. Sidarta entediava-o, e o fato de ele retribuir a

traquinice pelo sorriso, o insulto pela gentileza, a maldade pelo carinho era

precisamente o que se afigurava ao menino como o cúmulo da odiosa astúcia

peculiar de um ancião hipócrita. O filho teria preferido mil vezes ser ameaçado

ou maltratado pelo pai. O dia chegou em que se evidenciou a antipatia. Em

furiosa explosão, o jovem Sidarta revoltou-se abertamente contra o velho. Este

acabava de dar-lhe uma ordem. Mandara-o ajuntar gravetos. Mas o garoto não saiu

da cabana. Recalcitrante e irado, conservava-se onde estava, batendo o pé,

cerrando os punhos e terminando por lançar na cara do pai um verdadeiro jato de

abominação e desprezo. – Vai buscar teus gravetos sozinho! – gritou escumando de

raiva. – Não sou teu escravo. Sei muito bem que tu, com a tua piedade e

indulgência, apenas tencionas castigar-me e amesquinhar-me. Queres que me tome

igual a ti, tão devoto, tão meigo e também tão sábio. Mas escuta: só para

magoar-te, quero antes ser assassino e salteador de estrada! Melhor ir ao

Inferno do que ser como tu! Detesto-te. Tu não és meu pai, mesmo que tenhas

dormido dez vezes com minha mãe! Transbordando de cólera e desgosto, investiu

contra o pai com centenas de palavras confusas e maldosas. Em seguida,

afastou-se correndo e somente voltou de tardezinha. Na manhã seguinte, porém,

desapareceu. Junto com ele sumiu uma cestinha trançada de vime colorido, na qual

os balseiros costumavam guardar as moedas de prata ou cobre, que haviam recebido dos

passageiros. Logo depois; os velhos verificaram a falta da embarcação.

Sidarta viu que ela se encontrava nas proximidades da outra ribeira. O menino

fugira. – Preciso ir atrás dele – disse Sidarta, que desde a cena do dia

anterior tremia de emoção e tristeza. – Não é possível que uma criança assim

ande sozinha pela selva. O menino há de perecer ali. Construamos urna jangada, ó

Vasudeva, para atravessarmos o rio. – Pois não, vamos construir uma jangada –

respondeu Vasudeva. – Assim recuperaremos a balsa que o garoto surripiou, Mas,

quanto a ele mesmo, meu amigo, melhor seria que o deixasses escapulir. Ele já

não é criança. Sabe defender-se. Procura o caminho que o conduza à cidade e faz

muito bem; não te esqueças disso! Apenas faz o que te omitiste fazer. Cuida de

ti mesmo. Segue a tua própria rota. Ah, Sidarta, vejo como sofres. E, todavia,

padeces dores que merecem ser metidas a ridículo. Tu mesmo te rirás delas daqui

a pouco. Sidarta permaneceu calado. Já tinha nas mãos o machado e se punha a

armar uma jangada de bambu. Vasudeva ajudou-o a atar os troncos com cordas de

junco. Em seguida, passaram-se ao outro lado. A corrente levou-os- para longe.

Quando alcançaram a ribeira, tiveram de sirgar a jangada rio acima. – Por que

trouxeste o machado? – perguntou Sidarta. Respondeu Vasudeva: – pode ser que o

remo de nossa balsa se tenha extraviado. Mas Sidarta não ignorava o que pensava

o amigo. Vasudeva queria dar a entender que o menino talvez tivesse quebrado ou

jogado fora o remo, a fim de vingar-se ou de impedir que o seguisse. E,

realmente, na balsa não se encontrava remo algum. Vasudeva apontou para ela,

olhando o companheiro com um leve sorriso, como se quisesse dizer: “Não estás

compreendendo que teu filho te pede que não o sigas?” No entanto, não enunciou

tal pensamento por palavras expressas. Em vez disso, começou a fabricar outro

remo. Sidarta, porém, despediu-se dele, a fim de ir à procura do filho. Vasudeva não se

opôs tampouco a essa tentativa. Depois de ter errado por muito tempo pela

selva, Sidarta percebeu que suas buscas eram improfícuas. Ou – assim raciocinava

– o menino já chegou à cidade, ou, se ainda estivesse a caminho, esconder-se-ia

do seu perseguidor. Ao refletir mais maduramente deu-se conta de que no fundo,

não se preocupava pelo filho, uma vez que no âmago do seu coração tinha certeza

de que este nem pereceria nem tampouco corria perigo na floresta. Mesmo assim,

caminhava sem cessar e já não o fazia na intenção de salvar o garoto, senão

exclusivamente para, quiçá, revê-lo pela última vez, Assim avançou passo por

passo até às portas da cidade. Quando se achava na larga avenida de entrada,

estacou, junto à grade do belo parque que antes pertencera a Kamala. Era o mesmo

lugar onde, outrora, a vira pela primeira vez, naquela suntuosa liteira. No seu

espírito ressuscitava o passado. Voltou-lhe a visão de si mesmo, do jovem samana

hirsuto, desnudo, com a cabeleira coberta de poeira. Por muito tempo, quedou-se

contemplando o jardim, através do portão aberto e observando os monges, de

batinas amarelas, a passearem à sombra das belas árvores. Horas afio, ficava

assim, a meditar, a evocar imagens, a escutar a história da sua vida, Horas a

fio, conservava-se imóvel espiando os religiosos. Em lugar deles, a imaginação

fazia surgir à sua mente o jovem Sidarta e a jovem Kamala, a perambularem sob as

árvores altas. Nitidamente lhe vinha à memória aquela hora em que Kamala o

acolhera na sua casa, em que ele recebera o primeiro beijo, Recordava-se

claramente da altivez e do desdém com que então considerara a sua posição de

brâmane e da ambição soberba com que iniciara a sua existência mundana.

Visionava a Kamasvami e à criadagem; rememorava os festins, os jogos de dados,

os músicos; revia o passarinho de Kamala na gaiola; tornava a viver todas

aquelas experiências, impregnando-se de Sansara, voltando a ser velho e cansado,

provando mais uma vez a amargura do asco, sentindo de novo o desejo de

extinguir-se a Sidarta mesmo e, finalmente, reencontrando a cura graças ao

sagrado Om. Depois de ter-se demorado longamente nas proximidades do portão do

parque, percebia a tolice da ânsia que o arrastara até aquele lugar.  Compreendia

que não podia ser útil ao filho e não devia apegar-se a ele. No fundo do coração

doía-lhe o amor ao fugitivo, feito ferida. Mas, ao mesmo tempo notava que essa

ferida lhe fora aplicada, não para que ele a alargasse, senão para que a

transformasse numa flor a abrir-se magnificamente. Entristecia-o a circunstância

de que a essa hora a corola ainda não tivesse desabrochado em todo o seu

esplendor. No lugar da almejada meta que o atraíra até àquele sítio, em busca do

filho, encontrava-se apenas o vazio. Melancolicamente, acocorou-se no chão.

Sentia que, no seu coração, algo estava morrendo. Divisava o vácuo. Já não

enxergava nem alegria nem objetivo. Mantinha-se absorto na meditação, entregue à

espera. Era isso, essa única coisa que aprendera do rio: a faculdade de

aguardar, de ter paciência, de escutar. E assim prosseguia escutando, agachado,

na poeira da estrada. Espreitava o ritmo do seu coração, como pulsava,

tristonho, fatigado. Ansiava por uma voz. Durante longas horas, conservara-se

assim, à espera de algo que lhe fosse dado ouvir. Já não tinha visões.

Mergulhava no vazio. Abandonava-se à queda, sem vislumbrar nenhum caminho. E,

sempre que sentia ardência da ferida, proferia silenciosamente o Om, imbuía-se

do Om. Os monges no jardim observavam-no, e quando ficara assim por muito tempo,

quando o pó se acumulara na cabeleira grisalha, vinha um deles e depositava a

seus pés duas bananas. Mas o ancião nem sequer o olhou. Desse torpor despertou-o

uma mão, a tocar-lhe o ombro. Reconhecendo imediatamente aquele contato

delicado, tímido, voltou a si e levantou-se para saudar a Vasudeva que lhe

seguira os passos. E ao contemplar o rosto do amigo, as ruguinhas como que

repletas de puro sorriso, os olhos joviais, também se pôs a sorrir. Nesse

instante reparou nas bananas que jaziam à sua frente. Apanhou-as e deu uma ao

balseiro, enquanto comia a outra. Em seguida, sem falar, voltou à floresta, em

companhia de Vasudeva. Encaminharam-se à balsa. Nenhum dos dois mencionava o que se

passara naquele dia. Não pronunciavam o nome do menino. Não aludiam à sua

fuga. Não mexiam na ferida. Na cabana, Sidarta recolheu-se ao leito, e quando Vasudeva,

alguns instantes depois, aproximou-se dele, a fim de oferecer-lhe uma

tigela de leite de coco, já o encontrou dormindo. “OM” Por muito tempo ainda, a

ferida continuou a arder. Cabia a Sidarta transportar através do rio numerosos

viandantes acompanhados de filhos ou filhas e cada vez que os observava, dava-se

conta de que tinha inveja deles, de que dizia de si para si: “Tanta gente,

tantos milhares de pessoas gozam dessa felicidade, da mais doce de todas, e eu

não! Por quê ? Até os homens mais maldosos, até os ladrões e os salteadores, têm

filhos. Amam-nos e são amados por eles. Unicamente eu não recebi o meu quinhão!”

Tais eram as reflexões ingênuas, insensatas que nessas horas lhe passavam pela

cabeça. A tal ponto assemelhara-se aos homens tolos. Era de modo diferente do de

outrora que a essa altura pensava a respeito das criaturas humanas. Havia nos

seus julgamentos menos intelecto, menos orgulho, mas em compensação, mais calor,

mais curiosidade, mais simpatia. Quando conduzia passageiros ordinários, homens

tolos, negociantes, guerreiros, mulherio, esses seres já não se lhe afiguravam

estranhos. Ele os compreendia. Compreendia a sua existência jamais orientada por

raciocínios e percepções, senão exclusivamente por instintos e desejos. Tomava

parte dela. Sentia-se igual a eles. Ainda que tivesse chegado bem perto da

perfeição e padecesse as dores da derradeira das suas feridas, tinha a impressão

de que aqueles homens tolos eram seus irmãos. A vaidade, a cupidez, o ridículo

que os dominavam perdiam para ele a sua comicidade, encontravam explicação,

tomavam-se até mesmo dignos de respeito. O amor cego que uma mãe tributasse ao

filho; o orgulho estúpido, obcecado, de que um pai presunçoso se enchesse em

face do filhinho único; o desejo desvairado, furioso de possuir jóias, de ser

admirada pelos homens, tal como o experimenta uma mocinha garrida – todos esses

instintos, todas essas infantilidades, ambições e ânsias, impulsos simples,

irracionais, porém invencíveis na sua desmedida força e na sua pujante

vitalidade, cessavam de apresentar-se aos olhos de Sidarta como meras

criancices. Chegava ele a entender que os seres humanos viviam em função dessas

coisas e que justamente elas os capacitavam para proezas incríveis, permitindo-lhes

fazerem guerras, empreenderem viagens, suportarem tudo e

resistirem a sofrimentos sem fim. Por isso, era possível que ele os amasse e que

se lhe descortinasse a vida, o ânimo, o Indestrutível, o Brama, a manifestar-se

em todos os atos e em todas as paixões dessas criaturas. Aquela gente, com sua

lealdade cega, com seu vigor e sua tenacidade, merecia carinho e admiração. Nada

lhe faltava. O sábio, o filósofo superava-a apenas num único e minúsculo

pontinho, numa só coisinha de nada; a saber, a consciência que ele obtivera da

unidade de toda a vida. E mesmo assim houve momentos em que o próprio Sidarta

duvidara do alto valor de tal sabedoria ou idéia e ventilasse a possibilidade de

também ela não passar de uma infantilidade peculiar de homens-pensadores ou de

criançolas pensantes. Em todos os demais assuntos, os homens comuns igualavam-se

aos sábios e, freqüentemente, lhes eram bastante superiores, assim como os

animais, na sua realização persistente, imperturbável, de tudo quanto for

necessário, às vezes parecem capazes de ultrapassar os homens. Lentamente

desabrochava e amadurecia no espírito de Sidarta a percepção, o conhecimento

daquilo que na Verdade significava sabedoria e devia ser a meta das suas buscas

prolongadas. Nada era a não ser uma predisposição da alma, a faculdade, a arte

secreta de conceber, a cada instante, em plena vida, a idéia da unidade, de

sentir a unidade, de encher dela os pulmões. Pouco a pouco, essa certeza crescia

nele e seu reflexo aparecia no rosto velho e todavia infantil, de Vasudeva,

revelando harmonia, ciência da eterna perfeição do cosmo, sorriso, unidade. Mas

a ferida continuava a arder. Com saudade e amargura, Sidarta recordava o filho.

No seu coração, conservava sentimentos carinhosos e ternos. Devorado pela dor,

cometia todas as tolices de que um homem amoroso é capaz. E essa chama não se

extinguia. Um dia, quando a ferida o torturava mais do que nunca, transpôs o

rio, acossado pela angústia. Desembarcou com a firme intenção de ir à cidade e

procurar o filho. As águas fluíam suave e silenciosamente. Era a época da seca.

Mas a voz do rio tinha um som estranho: ela sorria! Ria-se abertamente. O rio dava risada.

Zombava inconfundivelmente do velho balseiro. Sidarta estacou.

Inclinou-se por cima da superfície, a fim de escutar melhor aquela voz. Na água

que avançava devagarzinho, via o seu rosto como num espelho e nessa imagem havia

algo que lhe despertava recordações, algo de que se esquecera e que lhe voltava

à memória, quando refletia um pouco: esse rosto parecia-se com o de outra pessoa

que ele, Sidarta, em tempos remotos, conhecera, adorara e também temera.

Parecia-se com o rosto do brâmane, seu pai. E ele evocou aquele dia distante da

sua adolescência em que coagira o pai a que o deixasse reunir-se com os ascetas.

Reviveu a hora da despedida, quando se fora, para nunca mais voltar. Não

padecera o pai as mesmas mágoas que nesse instante atormentavam a ele próprio,

devido ao filho? Não morrera o pai, havia muito tempo, em plena solidão, sem

jamais o ter revisto? E não aguardava ao próprio Sidarta esse mesmo destino? Tal

repetição, tal corrida num círculo vicioso, que significavam elas a não ser uma

comédia, uma coisa tão esquisita quanto disparatada? E o rio prosseguia soltando

risadas. Realmente, era assim! Tudo voltava, todos os sofrimentos que não

tivessem encontrado uma solução final. Era preciso suportar sempre as mesmas

aflições. Sidarta, porém, reembarcou na balsa. Ao regressar à cabana, recordava

o pai, recordava o filho, escarnecido pelo rio, lutando com o próprio ‘eu’, à

beira do desespero e, apesar disso, propenso a soltar gargalhadas, mofando de si

e do mundo inteiro. Ai dele!, a ferida ainda não se transformara em flor. O

coração continuava a rebelar-se contra a sua sina. O seu sofrimento ainda não

chegara a irradiar serenidade e triunfo. Contudo, sentia-se esperançoso e, ao

alcançar a choupana, tinha o irresistível desejo de abrir-se a Vasudeva, de

mostrar-lhe o fundo da sua alma, de dizer tudo, tudo a esse mestre na arte de

escutar. Vasudeva estava sentado na cabana, a trançar uma cesta. Já não dirigia

a balsa. Sua vista começava a ficar fraca e não somente os olhos, como também os

braços e as mãos enfraqueciam cada vez mais. Inalterados permaneciam somente a

jovialidade e a plácida benevolência de sua fisionomia. Sidarta tomou assento ao

lado do ancião. Em seguida, pôs-se a falar lentamente. Contou coisas que nunca

haviam sido mencionadas entre eles. Tratou daquela caminhada que dera à cidade,

outrora instigado pela ferida ardente, pela inveja que lhe causava a visão de

pais felizes. Confessou saber que esses desejos eram tolos. Relatou as lutas que

travara contra eles. Não omitiu nada. Sentiu-se capaz de dizer tudo, inclusive

os fatos mais penosos. Conseguiu confessar quaisquer segredos, patentear o que

quer que houvesse, narrar todos os pormenores. E ele exibiu sua ferida.

Revelando também a tentativa de escape que empreendera naquela mesma manhã,

descreveu como atravessara as águas, qual criança que fugia do lar, e como o rio

zombava da sua intenção de ir à cidade. Enquanto ele falava sem parar e Vasudeva

o escutava com o rosto impassível, Sidarta notava mais fortemente do que nunca o

encanto dessa atenção do amigo. Observava que suas dores, suas angústias fluíam

em direção ao outro, que suas mais arcanas esperanças tomavam o mesmo rumo e lhe

eram devolvidas pelo companheiro. Descobrir a sua ferida a uma pessoa que

soubesse ouvir como só Vasudeva sabia fazê-lo era como se a lavasse no rio, até

que cessasse de arder e se unisse com a água. Enquanto que prosseguia falando,

revelando mais e mais segredos, abrindo-se sem nenhuma restrição, Sidarta

reconhecia com crescente clareza que aquele ente que o escutava, imóvel, já não

era Vasudeva, já não era nenhum ser humano, pois que se impregnava da sua

confissão como uma árvore absorve a chuva. Sim, esse vulto imutável era o

próprio rio, era Deus mesmo, era a Eternidade. E enquanto Sidarta cessava de

pensar em si e na sua ferida, apossava-se dele a certeza da transformação que se

passara com Vasudeva. Quanto mais se convencia dela, tanto mais entrava no seu

cerne, mais claramente via que tudo era natural, que tudo estava na mais

perfeita ordem, que Vasudeva fora assim havia muito, desde sempre e sempre,

talvez. Só ele não se dera conta desse fato. Até podia ser que quase não

existisse mais diferença alguma entre ele e o companheiro! Tinha então a

sensação de encarar o velho Vasudeva assim como o povo encara as divindades e

que esse estado de coisas não duraria muito mais tempo. No seu espírito, começava a

despedir-se de Vasudeva. Não obstante, continuava a falar. Quando

Sidarta terminou, Vasudeva lhe lançou um desses seus olhares bondosos, já um

tanto infirmes. Não disse nada. Limitou-se a irradiar em direção a Sidarta

carinho e serenidade, compreensão e sabedoria. Agarrando a mão do amigo,

conduziu-o até à ribeira. Lá, sentou-se ao seu lado. Sorrindo, contemplou o rio:

– Ouviste como ele se riu – disse. – Mas não ouviste tudo. Prestemos atenção.

Logo ouvirás muito mais. E ambos escutavam o murmúrio das ondas. Suavemente

ressoava o canto das inúmeras vozes do rio. Sidarta olhava as águas e na

corrente surgiam imagens: aparecia-lhe o pai solitário, a lamentar a perda do

filho; aparecia ele mesmo, igualmente solitário, ligado ao filho distante pelas

amarras da saudade; aparecia-lhe o filho, também ele solitário, a percorrer

avidamente a pista abrasada dos seus desejos juvenis. Cada qual tinha os olhos

fixos na sua meta; cada qual andava fanaticamente atrás do seu desígnio; cada

qual sofria. O rio cantava com voz plangente. Cantava saudades. Angustiado,

dirigia-se à sua foz, e sua voz soava melancólica. – Estás ouvindo? – perguntou

o olhar mudo de Vasudeva. Sidarta fez que sim. – Escuta mais! – soprou-lhe

Vasudeva. Sidarta esforçou-se por aguçar os ouvidos. A imagem do pai, a sua

própria imagem e a do filho, todas elas se confundiam. Também surgiam e diluíam

em seguida as visões de Kamala, de Govinda, e muitas outras. Entremesclavam-se,

tornavam-se rio e como tal fluíam em direção à meta, ávida, ansiosa,

tristemente. E a voz do rio ressoava, cheia de saudade, cheia de doloroso pesar,

cheia de insaciável desejo. O rio rumava em direção à sua foz. Sidarta percebia

a pressa daquela corrente formada por ele mesmo, pelos seus, por todos os homens

que já se lhe haviam deparado. Todas essas ondas e águas, carregadas de

sofrimentos, precipitavam-se em busca de suas metas, que eram muitas, as

cataratas, o lago, o estreito, o mar e, uma a uma, as metas eram alcançadas, mas

a cada qual seguia outra; da água formava-se bruma, que subia ao céu,

transformava-se em chuva, a cair das alturas, virava fonte, virava regato,

virava rio e novamente iniciava a sua jornada, novamente fluía rumo à meta. Mas

.a voz sôfrega acabava de mudar. Ainda ressoava, plangente, inquiridora, porém

se misturava com outras vozes, alegres e aflitas, boas e más, risonhas e

entristecidas, centenas de vozes, milhares de vozes. Sidarta escutava. Naquele momento,

era todo ouvidos, entregando-se por inteiro à própria atenção,

receptáculo totalmente vazio, prestes a encher-se. Sentia que àquela hora

atingiria a derradeira perfeição na arte de escutar. Quantas vezes não ouvira

todos aqueles rumores, a multiplicidade das vozes que vinham do rio, mas naquele

dia lhe pareciam novas. Já não era capaz de identificá-las. Não conseguia

distinguir as vozes jubilosas das choronas, as infantis das másculas. Todas elas

formavam uma só, a lamentação da nostalgia, a risada do ceticismo, o grito da

cólera e o estertor da agonia. Tudo era uma e a mesma coisa, tudo se entretecia,

enredava-se, emaranhava-se mil vezes. E todo aquele conjunto, a soma das vozes,

a totalidade das metas, das ânsias, dos sofrimentos, das delícias, todo o Bem e

todo o Mal, esse conjunto era o mundo. Esse conjunto era o rio dos destinos, era

a música da vida. Mas, quando ele escutava atentamente o que cantava o rio, com

seu coro de mil vozes, quando se abstinha de destilar dele o sofrimento ou o

riso, quando cessava de ligar a alma a determinada voz e de penetrar nela com o

seu espírito, quando, pelo contrário, ouvia todas elas, a soma, a unidade,

acontecia que a grandiosa cantiga das milhares de vozes se resumia numa só

palavra, que era ‘Om’, a perfeição. – Estás ouvindo? – tornou a indagar o olhar

de Vasudeva. Luminosamente resplandecia o sorriso do balseiro, pairando por cima

das inúmeras rugas do semblante idoso, assim como o Om pairava por cima de todas

as vozes do rio. Luminosamente resplandecia o seu sorriso enquanto fitava o

amigo e com igual clareza luzia no rosto de Sidarta o mesmo sorriso. Sua ferida

desabrochava como uma flor. Sua mágoa fulgia. Seu ‘eu’ incorporara-se na

unidade. Foi nessa hora que Sidarta cessou de lutar contra o Destino. Cessou de

sofrer. No seu rosto florescia aquela serenidade do saber, à qual já não se

opunha nenhuma vontade, que conhece a perfeição, que está de acordo com o rio dos

acontecimentos e o curso da vida; a serenidade que torna suas as penas e as

ditas de todos, entregue à corrente, pertencente à unidade. Quando Vasudeva se

levantou do seu assento, na ribeira, quando mirou os olhos de Sidarta e nele

descobriu a serenidade do saber, tocou suavemente no ombro do companheiro,

daquela maneira discreta, delicada, que lhe era peculiar, e disse: – Esperei,

meu caro, que esta hora viesse um dia. Agora que ela veio, deixa que me vá.

Durante algum tempo ansiei por ela. Por longos anos tenho sido Vasudeva, o

balseiro. Agora basta. Adeus, cabana! Adeus, rio! Adeus, Sidarta. Sidarta

curvou-se profundamente diante do amigo que se despedia. – Eu sabia disso –

murmurou. – Tu te dirigirás à selva? – Dirijo-me à selva. Busco a unidade –

respondeu Vasudeva, radiante. E radiante se foi. Sidarta acompanhou-o com o

olhar, e nos seus olhos havia infinita alegria, infinita gravidade, enquanto

observava o andar calmo, a cabeça aureolada, o vulto envolvido em luz.

Setembro, 2011 – Meditação – Khalil Gibran

“…a vida é de fato escuridão, exceto lá onde houver impulso;

e todo impulso é cego, exceto onde houver sabedoria;

e toda sabedoria é vã, exceto onde há trabalho;

e todo trabalho é vazio, exceto onde há amor;

e quando você trabalha com amor, você se liga com você mesmo

e com o outro, e com Deus.”

Março, abril de 2011 – JAPÃO – Monja Coen

Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Japão, me incumbi da difícil missão de transmitir o que mais me impressionou do povo Japonês: kokoro.

Kokoro ou Shin significa coração-mente-essência.

Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar à serviço e disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada?

Outra palavra é gaman: aguentar, suportar. Educação para ser capaz de suportar dificuldades e superá-las.

Assim, os eventos de 11 de março, no Nordeste japonês, surpreenderam o mundo de duas maneiras.

A primeira pela violência do tsunami e dos vários terremotos, bem como dos perigos de radiação das usinas nucleares de Fukushima.

A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paciência, honra e respeito de todas as vítimas.

Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros.

Nos abrigos, a surpresa das repórteres norte americanas: ninguém queria tirar vantagem sobre ninguém. Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupações, massagens. Cada qual se mantinha em sua área. As crianças não faziam algazarra, não corriam e gritavam, mas se mantinham no espaço que a família havia reservado.

Não furaram as filas para assistência médica – quantas pessoas necessitando de remédios perdidos- mas esperaram sua vez também para receber água, usar o telefone, receber atenção médica, alimentos, roupas e escalda pés singelos, com pouquíssima água.

Compartilharam também do resfriado, da falta de água para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de verduras, leite, da morte.

Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, não houve saques. Houve a resignação da tragédia e o agradecimento pelo pouco que recebiam. Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de kansha no kokoro: coração de gratidão.

Sumimasen é outra palavra chave. Desculpe, sinto muito, com licença. Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver. Desculpe causar preocupação, desculpe incomodar, desculpe precisar falar com você, ou tocar à sua porta. Desculpe pela minha dor, pelo minhas lágrimas, pela minha passagem, pela preocupação que estamos causando ao mundo. Sumimasem.

Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas.

O inverso não é verdadeiro: se pensar primeiro em mim e só cuidar de mim, perderei. Cada um de nós, cada uma de nós é o todo manifesto.

Acompanhando as transmissões na TV e na Internet pude pressentir a atenção e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade, sem ofender, sem estarrecer, sem causar pânico. As vítimas encontradas, vivas ou mortas eram gentilmente cobertas pelos grupos de resgate e delicadamente transportadas – quer para as tendas do exército, que serviam de hospital, quer para as ambulâncias, helicópteros, barcos, que os levariam a hospitais.

Análise da situação por especialistas, informações incessantes a toda população pelos oficiais do governo e a noção bem estabelecida de que “somos um só povo e um só país”.

Telefonei várias vezes aos templos por onde passei e recebi telefonemas. Diziam-me do exagero das notícias internacionais, da confiança nas soluções que seriam encontradas e todos me pediram que não cancelasse nossa viagem em Julho próximo.

Aprendemos com essa tragédia o que Buda ensinou há dois mil e quinhentos anos: a vida é transitória, nada é seguro neste mundo, tudo pode ser destruído em um instante e reconstruído novamente.

Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo está interligado e que nós humanos não somos e jamais seremos capazes de salvar a Terra. O planeta tem seu próprio movimento e vida. Estamos na superfície, na casquinha mais fina. Os movimentos das placas tectônicas não tem a ver com sentimentos humanos, com divindades, vinganças ou castigos. O que podemos fazer é cuidar da pequena camada produtiva, da água, do solo e do ar que respiramos. E isso já é uma tarefa e tanto.

Aprendemos com o povo japonês que a solidariedade leva à ordem, que a paciência leva à tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva à reconstrução.

Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de respeito aos vivos e aos mortos ficará impresso em todos que acompanharam os eventos que se seguiram a 11 de março.

Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi a amar e respeitar.

Havia pessoas suas conhecidas na tragédia?, me perguntaram. E só posso dizer : todas. Todas eram e são pessoas de meu conhecimento. Com elas aprendi a orar, a ter fé, paciência, persistência. Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas.

Mãos em prece (gassho)

Monja Coen

15/02/2011- 13 LINHAS PARA VIVER – Gabriel Garcia Marques

1. Gosto de você não por quem tu és, mas por quem sou quando estou contigo.

2. Nenhuma pessoa merece tuas lágrimas, e quem as mereça não te farás chorar.

3. Só porque alguém não te ama como você quer, não significa que não te ame com todo teu ser.

4. Um verdadeiro amigo é quem pega tua mão e toca teu coração.

5. A pior forma de sentir saudade de alguém é estar sentado a seu lado e saber que nunca o poderás ter.

6. Nunca deixes de sorrir, nem quando estejas triste porque nunca sabes quem pode se apaixonar por teu sorriso.

7. Podes ser somente uma pessoa para o mundo, mas para alguma pessoa você é o mundo.

8. Não passes o tempo com alguém que não esteja disposto a passá-lo contigo.

9. Quem sabe Deus queira que conheças muita gente equivocada antes que conheças a pessoa adequada, para que quando finalmente a conheças, saibas estar agradecido.

10. Não chores porque já terminou, sorria porque aconteceu.

11. Sempre haverá gente que te machuca, assim que o que tens a fazer é seguir confiando e ser mais cuidadoso em quem confias duas vezes.

12. Transforme-se em uma pessoa melhor e assegure-se de saber quem és antes de conhecer alguém e esperar que essa pessoa saiba quem és.

13. Não te esforces tanto, as melhores coisas acontecem quando menos as esperas.

29/11/2010 – Sobre o valor

Confúcio  – “Um homem deve afirmar: eu não estou preocupado por não ter um lugar, estou preocupado em como posso me ajustar a um lugar. Não estou preocupado por não ser conhecido; procuro ter valor para ser conhecido.”

29/11/2010 – Ato e palavra

Tsze-Kung perguntou no que se constituía um homem superior. Confúcio responde: “É aquele que age antes de falar e depois fala de acordo com as suas ações”.

14/10/2010- Daidoji Yusan – Justo e injusto

Um guerreiro deve ter total compreensão desses dois aspectos. Se sabe como praticar um e evitar o outro, terá alcançado o bushido.

Justo e injusto são, nada mais nada menos, que o bem e o mal, embora não possa negar que existe uma sutil diferença entre os dois termos; atuar justamente e fazer o bem é difícil e é algo cansativo, enquanto que ter atitudes injustas e fazer o mal é bem mais fácil e divertido, de modo que a natureza das pessoas faz com que elas tenham uma facilidade em escolher o caminho da injustiça e do mal, e tendam a não gostar do que é justo e bom. Mas ser instável e não distinguir o justo do injusto é não saber utilizar a razão…

Para trabalhar bem, utilizando a justiça, existem três etapas a seguir.

Suponhamos que um homem planeje uma viagem com seu vizinho e este possua cem moedas de ouro, mas, para evitar o risco de leva-las consigo, guarda suas moedas na casa daquele que o convidou para a viagem, sem dizer a ninguém. No decorrer da viagem, o vizinho fica doente[…] e morre. Ninguém saberá onde está o dinheiro. Mas o seu companheiro de viagem, por pura e simples simpatia, imediatamente avisa os parentes e devolve o dinheiro. Este é um homem que faz o que é justo.

Uma segunda hipótese: que o homem, dono do dinheiro, tivesse somente alguns conhecidos e nenhum amigo intimo, e ninguém soubesse da existência do dinheiro que ele deixou guardado; provavelmente, não haverá ninguém para questionar o assunto. Assim, o outro homem acha que não há nada de mal em usufruir do dinheiro[…] Mas a vergonha imediata cai sobre ele por ter tido um pensamento tão equivocado, e imediatamente ele devolve o dinheiro. Isso é trabalhar bem por causa da vergonha que provém da própria mente. Suponhamos que alguém que está em sua casa saiba da existência desse dinheiro, e o homem que o guardou tenha vergonha do que possam dizer dele no futuro. Esta é uma pessoa que trabalha bem por causa da vergonha relacionada a outras pessoas. Agora aqui lanço a pergunta: e se ninguém soubesse da existência desse dinheiro? Igualmente será uma pessoa que trabalhou o lado justo, se fizer a coisa correta.

Para exercitar a justiça e ter uma conduta correta, é necessário sentir vergonha do desprezo da nossa família, dos criados e amigos e, depois, dos conhecidos e desconhecidos, evitando o mal e fazendo o bem. Isso acabará sendo um hábito tão natural que, com o tempo, iremos preferir o bem e odiar o mal.

Mais uma vez, no caminho do valor, quem é valente de nascimento pensará que não custa nada entrar em uma batalha e expor-se ao disparo de flechas e balas. Consagrado à lealdade e ao dever, fará de seu corpo um escudo e seguirá seu caminho, mostrando com isso o seu excepcional valor e será um exemplo a ser seguido. Mas poderá haver alguém que fique tremendo de medo quando lhe perguntam o que fará para sair-se bem de uma situação como essa, parado no meio de todo esse perigo; porém, devido à vergonha de ser o único a falhar diante de seus companheiros quando eles avançam, e por temer perder a reputação, segue. Então ficará atrás daquele que é valente por natureza. Com o tempo, embora possa ser muito inferior ao valente de nascimento, ficará acostumado a essa situação e participará como os valentes. Dessa maneira, seu valor será confirmado e ele será visto como um guerreiro. Não será em nada inferior àquele que nasceu com a valentia em suas veias. Portanto, para fazer o que é correto e mostrar o seu valor, em ambos os casos foi necessária a presença da vergonha. Mas se alguém diz erroneamente que não se importa com o que chamamos de injusto, mas ri de um covarde, afirmando igualmente que não se importa com isso, o que poderá ser feito para disciplinar esse tipo de gente?

12/09/2010 – Confúcio disse: “Dedique-se com afinco a aprender e espere a morte da maneira correta. Não entre em um reino instável; não permaneça em um reino instável. Mostre-se quando o tao vingar no império, mas esconda-se quando isso não acontecer. É vergonhoso ser pobre e humilde quando o tao prevalece no reino. Igualmente é vergonhoso ser rico e nobre quando o caminho cai em desgraça no reino.”

2010 – Esperança – Chei Ai Min

– Mestre, por que estariam aqueles  homens preocupados em limpar o pântano? Não reconheço nenhuma utilidade no que fazem!

– Eles acreditam nos lírios, Chin An Ling!

15/08/2010 – Justiça – Chei Ai Min

– Clamei pela justiça e não consegui compreendê-la, mestre.

– E jamais a compreenderás, Chin An Ling, se não a praticares. O verdadeiro conhecimento não está fora de ti. Repousa no imo do ser e só vem à luz com o trabalho. Serve e não meças o teu empenho. Um dia, em meio à suprema dedicação, sentirás a justiça crescendo de teu próprio ser.

15/08/2010 Reflexões acerca de uma flor– Eiji Yoshikawa: Musashi.

O velho suserano parecia ter a lendária longevidade de um grou. Já alcançara a casa dos 80 e com o passar dos anos, seu caráter se refinava. Tinha bons dentes ainda e orgulho de sua vista acurada.

— Chegarei aos cem, sem dúvida — dizia sempre. Costumava enumerar fatos que corroboravam essa certeza: —A longevidade sempre foi uma das características dos descendentes da casa Yagyu. Apenas os que tombaram nos campos de batalha morreram na casa dos 20 ou 30 anos. De morte natural, deitado sobre o tatami, nenhum dos meus ancestrais morreu aos 50 ou 60.

Mas um homem que, como Sekishusai, tivesse se ocupado em conduzir vida e velhice com sabedoria, talvez chegasse aos cem anos mesmo sem a ajuda da hereditariedade. Atravessara os especialmente conturbados períodos Kyoroku (1528-1532), Tenbun (1532-1555), Kouji (1555-1558), Eiroku (1558-1570), Genki (1570-1573), Tenshou (1573-1592), Bunroku (1592-1596), até esses dias do período Keicho (1596-1615), e até chegar à idade madura dos 47 anos já havia testemunhado a revolta do clã Miyoshi, a queda do xogum Ashikaga, a ascensão e a queda de Matsunaga e de Oda.

Embora vivesse numa pequena província, vira-se tão envolvido em conflitos que nem tivera tempo de depor as armas entre uma guerra e outra. “Não sei como não morri naqueles dias”, costumava repetir Sekishusai.

A partir dos 47 anos, no entanto, recusou-se categoricamente a pegar outra vez em armas, ninguém sabia por quê. Foi assim que resistiu aos sedutores apelos do xogum Ashikaga Yoshiaki, aos convites insistentes de Oda Nobunaga, à esplêndida expansão da hegemonia japonesa empreendida por Toyotomi Hideyoshi. E embora seu feudo se situasse a um pulo de Osaka e Kyoto, Yagyu Muneyoshi fez-se surdo e mudo, ignorando qualquer convite, e manteve-se estritamente no anonimato. Assim, como um urso enfurnado na toca, ocultou-se naquelas montanhas protegendo com extremo cuidado seu feudo de 3.000 koku.

Posteriormente, diria a conhecidos:

—Até hoje, não sei como consegui sobreviver. Num mundo agitado por guerras e vertiginosas ascensões e quedas no cenário do poder — quando um homem, ao amanhecer, não sabia se viveria até o entardecer — pergunto- me se a sobrevivência de um pequeno castelo como este até os dias de hoje não representaria um milagre do período Sengoku. E tinha razão. Todos os que o ouviam admiravam sua clarividência.

Tivesse ele se aliado ao xogum Ashikaga Yoshiaki, teria sido com certeza aniquilado por Oda Nobunaga; se se aliasse a Nobunaga, seu destino, com a ascensão de Toyotomi Hideyoshi, teria sido duvidoso; se tivesse atendido aos insistentes apelos de Hideyoshi, teria sido mais tarde derrotado por Tokugawa Ieyasu nos campos de Sekigahara.

Além disso, se tivesse se envolvido nos inúmeros conflitos daqueles anos, manter sua casa incólume — sem naufragar nos vagalhões provocados por ascensões e quedas de poderosos — teria sido tarefa de difícil execução, demandando muita coragem, um tipo de coragem estranho ao código de honra de um bushi. Assim era que, em determinadas situações, teria sido forçado a compor alianças em um dia para vergonhosamente traí-las no dia seguinte, ou ainda, em casos extremos, a contrariar todos os seus princípios e convicções e derramar o sangue dos próprios filhos.

— E esse tipo de coragem não tenho — dizia Sekishusai. Era verdade, provavelmente.

Assim se explicava também o sentido de um verso de sua autoria — escrito em papel especial e emoldurado — que pendia na parede principal do aposento onde Sekishusai realizava as cerimônias de chá:

Pelas trilhas da vida

Não sei me conduzir.

Só me resta então buscar refúgio

À sombra das artes marciais.

Todavia, mesmo ele… um magistral espadachim adepto de Lao Tzu — finalmente capitulou quando Tokugawa lhe ofereceu um posto em seu governo nos termos mais corteses.

— É difícil recusar um pedido tão amigável — murmurara. Abandonou

então a singela cabana onde se recolhera por décadas absorto em meditação taoísta, e entrevistou-se pela primeira vez com Tokugawa nos quartéis de Takagamine, em Kyoto.

Nessa ocasião, levou em sua companhia o quinto filho, Mataemon Munenori, então com 24 anos de idade, e o neto Shinjiro Toshitoshi, de 16 anos, ainda em menoridade. E no momento em que recebia das mãos de Tokugawa o certificado que lhe assegurava a manutenção de seus

domínios, dele ouviu também um pedido: que o servisse doravante como estrategista da casa Tokugawa. A isso respondeu:

— Considerai a vosso serviço este meu filho, Munenori.

Retirou-se então novamente à cabana do vale Yagyu. E quando Munenori foi designado instrutor de artes marciais da casa xogunal e convocado a Edo, levou como parte de sua bagagem uma nova visão, a ele transmitida pelo sábio pai: a da arte marcial não como simples jogo de técnica e força, mas como instrumento para governar um país.

II

Sekishusai via a arte marcial como um instrumento de governo e, simultaneamente, como um caminho para uma vida virtuosa. Com relação a essa sua visão de vida e das artes marciais, dizia sempre: — Devo-a a meu mestre — nunca se esquecendo de louvar lorde Kamiizumi Nobutsune. — Lorde Kamiizumi é, sem sombra de dúvida, a divindade protetora da casa Yagyu — repetia inúmeras vezes. Corroborando a condição quase divina de lorde Kamiizumi na casa, havia numa prateleira de sua sala, em permanente consagração, um certificado que recebera das mãos do lorde dando-lhe permissão para praticar o estilo Shinkage de esgrima, e um documento antigo — quatro rolos de papel-pergaminho ilustrados — reverenciados por Sekishusai. Nos aniversários da morte do seu velho mestre, Sekishusai nunca se esquecia de sentar-se formalizado diante da prateleira e cultuar sua memória.

Os quatro rolos de pergaminho continham a descrição da técnica da Espada Oculta, ou seja, do estilo Shinkage de esgrima, com ilustrações de próprio punho do lorde, acompanhadas de explicações.

Mesmo depois de velho, Sekishusai desenrolava os pergaminhos com freqüência e os examinava, perdido em lembranças, comentando:

— Além de tudo desenhava bem, o mestre.

Sekishusai impressionava-se a cada vez com o estranho poder de emocionar das ilustrações. Retratavam indivíduos típicos do período Tenbun (1532-1555) defrontando-se em inúmeras e galantes poses de duelo, as espadas desembainhadas. Ao examiná-las, uma soberba presença parecia descer sobre o ambiente e lentamente envolver em neblina o alpendre da pequena cabana rústica.

Lorde Kamiizumi surgira pela primeira vez no castelo Koyagyu quando Sekishusai era ainda um jovem ambicioso de seus 37 ou 38 anos. Na época, lorde Kamiizumi — em companhia do sobrinho, um certo Hikida Bunzagoro, e de um discípulo idoso, Suzuki Ihaku — peregrinava pelas províncias batendo à porta das academias e, certo dia, por apresentação de Kitajima Tomonori, apareceu no templo Hozoin. À época, o abade de Hozoin, Kakuzenbo In’ei, freqüentava o castelo Koyagyu e comentou com Sekishusai, ainda conhecido como Yagyu Muneyoshi:

— Surgiu em meu templo um homem com essas qualificações… Esse foi o começo de uma longa amizade.

Levado ao castelo Koyagyu, lorde Kamiizumi bateu-se em duelos com Yagyu Muneyoshi por três dias consecutivos. No primeiro dia, Kamiizumi avisou: — Vejo tal ponto desguarnecido. Vou golpear! Apesar de avisado sobre o ponto desguarnecido, Muneyoshi não conseguiu defender-se e Kamiizumi atingiu-o precisamente nesse ponto. No segundo dia, Muneyoshi foi derrotado do mesmo modo.

Com o orgulho ferido, no terceiro dia Muneyoshi se esmerou e, disfarçando o quanto pôde, guardou-se de maneira diferente. Kamiizumi então disse: — Ah,é assim? Então, vou golpeá-lo deste modo! — e o atingiu novamente, tomo nos dias anteriores, no ponto anunciado.

Muneyoshi deixou então cair a espada que usara com tanta presunção e declarou:

— Percebo agora, pela primeira vez, o verdadeiro sentido da arte marcial. A seguir, reteve lorde Kamiizumi em seu castelo por meio ano e empenhou-se seriamente em aprender com ele.

Por fim, lorde Kamiizumi despediu-se, alegando a inconveniência da longa estada e, ao partir, recomendou-lhe: — Minha técnica está longe da perfeição. Você ainda é jovem. Tente

tornar perfeitos os meus pontos imperfeitos. E antes de ir-se embora, deixou-lhe um koan — proposição enigmática para meditação zen:

— Que significa “esgrimir sem a espada”?

A partir desse dia, Muneyoshi meditou sobre o tema anos a fio, obsessivamente, procurando divisar o princípio da esgrima sem espada, perseverando nos estudos a ponto de se esquecer, por vezes, de dormir ou se alimentar.

Anos depois, quando Kamiizumi o visitou novamente em seu castelo, Muneyoshi recebeu-o com o semblante desanuviado. Ao se defrontarem para o treinamento, Muneyoshi perguntou:

— Que lhe parece isto?

Kamiizumi lançou apenas um olhar à sua postura e, com uma exclamação admirada, disse:

— Nada mais tenho a lhe ensinar. Você apreendeu a verdade.

Partira então, deixando-lhe o certificado e os quatro rolos de pergaminho.

Assim se originou o estilo Yagyu da Espada Oculta, e o gosto pelo incógnito desenvolvido por Sekishusai Muneyoshi a partir da idade madura — segredo, aliás, de sua vida bem sucedida — originou-se, por sua vez, nesse estilo.

III

A cabana em que Sekishusai agora vivia situava-se dentro dos muros do castelo, naturalmente. Mandara construir a cabana isolada do castelo porque a arquitetura deste último — uma sólida construção fortificada — não se harmonizava com seu estado de espírito na velhice. Refugiara-se portanto na singela ermida, vivendo com a simplicidade de um montanhês.

— E então, Otsu, que achas? Esta flor não te parece viva? —

perguntou Sekishusai. Lançara um galho de peônia num vaso delgado e, embevecido, contemplava o resultado. Às suas costas, Otsu, que espiava sobre o ombro, disse:

— Certamente! Pelo visto, tiveste excelentes mestres tanto de ikebana quanto da arte do chá, grão-senhor.

— Absurdo! Não sou nenhum cortesão! Nunca tive mestres de arranjos florais ou chá.

— Mas vossas obras dão essa impressão, grão-senhor.

— É muito simples, Otsu: emprego um mesmo princípio, tanto para esgrimir como para arranjar uma flor num vaso — esclareceu o velho suserano.

— Verdade? — admirou-se Otsu. — Pode-se então arrumar uma flor num vaso usando o mesmo princípio da esgrima?

— Claro que se pode. Basta que empenhes teu espírito. Não costumo torcer a flor com os dedos, ou estrangular seu caule. Apanho a flor que viceja nos campos e, sem lhe alterar a aparência, jogo-a na água, assim, empenhando no ato o espírito. E aí a tens: esta flor não morreu, está viva!

Servindo àquele ancião, Otsu tivera a oportunidade de aprender inúmeras lições, embora sua presença no castelo resultasse de um fortuito encontro de estrada com Shoda Kizaemon — o administrador da casa Yagyu — que a convidara a tocar flauta para amenizar os tediosos dias do idoso amo.

E, ou o velho susèrano apreciava as melodias tocadas por Otsu, ou julgava a suave presença da jovem um lenitivo para o frio ambiente da cabana, pois toda vez que Otsu levantava a questão de seguir viagem, interrompia-a dizendo: “Fica mais um pouco!”, “Quero te ensinar os rudimentos da cerimônia do chá”, ou ainda, “Conheces os poemas clássicos? Ensina-me então alguns versos da coletânea Kokin. Gosto também dos versos da antologia Man’you, mas o ambiente singelo desta ermida talvez combine melhor com o estilo sereno dos versos da coletânea Sanka, que achas?” Otsu, a seu turno, tinha para com o idoso suserano demonstrações de delicada atenção, inexistentes ao redor desse homem cercado de rudes guerreiros:

— Grão-senhor, confeccionei este capuz, pois achei que protegeria vossa cabeça do frio. Experimentai-o.

— Mas é muito confortável! — alegrava-se Sekishusai, experimentando o capuz e afeiçoando-se cada vez mais à delicada jovem.

Em noites de luar, o som da flauta tocada por Otsu transpunha os muros do castelo. Nessas ocasiões Shoda Kizaemon sorria intimamente, satisfeito com a esplêndida idéia que tivera de convidá-la.

Nesse instante, Kizaemon, retornando de uma missão ao povoado, saíra do bosque atrás do forte e chegava à cabana de Sekishusai. Espreitou cauteloso a entrada e chamou discretamente: — Otsu-san!

— Pronto? — respondeu Otsu, abrindo a portinhola. Ao dar com Shoda ali em pé, admirou-se e lhe disse: — Ora, entre, por favor!

— Onde está o grão-senhor?

— Lendo, lá dentro — respondeu Otsu.

— Anuncie-me a ele, por favor. Diga-lhe que Kizaemon acaba de retornar da missão.

IV

Otsu riu, divertida:

— Ora, Shoda-sama, o senhor está invertendo nossas posições!

— Como assim?

— É óbvio! Sou uma simples flautista desconhecida trazida até aqui para tocar para o grão-senhor. E o senhor, Shoda-sama, é o seu administrador e não precisa ser anunciado.

—Tem razão — disse Shoda, achando graça na própria confusão, porém insistindo:

— Mas me anuncie, assim mesmo. Afinal, esta cabana é domínio do grão-senhor e portanto, você aqui tem uma posição especial.

— Sim, senhor — concordou Otsu. Retornou em seguida e introduziu-o na casa: — Por favor.

Sekishusai sentava-se na sala de chá e usava o capuz confeccionado por Otsu. Ao ver seu administrador, perguntou:

— Foste até lá?

— Conforme vossas instruções. Transmiti vossas palavras com toda a cortesia e ofereci-lhes os confeitos, dizendo que eram de vossa parte.

— Já se foram?

— Infelizmente, não. Mal retornei ao castelo, mandaram um mensageiro da hospedaria Wataya no meu encalço com uma carta. Dizem que, uma vez que estão nesta região, querem a todo custo aproveitar esta rara oportunidade e visitar o salão de treino, e que virão amanhã sem falta ao castelo. Além disso, dizem que fazem questão de se avistar com Sekishusaisama e cumprimentá-lo pessoalmente.

— Fedelho impertinente! — murmurou Sekishusai, estalando a língua com impaciência. — Que amolação, Shoda. Seu rosto se contraiu, mal-humorado.

— Explicaste direito que Munenori se encontra em Edo, Toshitoshi em Kumamoto, e que os demais irmãos estão ausentes?

— Sim, senhor!

— Mas que indivíduo desagradável! Ignorou o fato de eu haver mandado um mensageiro especial com uma recusa muito polida e continua insistindo.

— Sinto muito, senhor…

— Pelo visto, os filhos de Yoshioka Kenpo não são grande coisa, conforme dizem os boatos.

— Vi-o na Hospedaria Wataya. O filho de Kenpo, Denshichiro, que segundo ele próprio diz, está ali hospedado de volta de uma peregrinação a Ise, não me pareceu um indivíduo de caráter, senhor.

— Não me admira. O velho Kenpo era um grande homem. Quando estive em Kyoto em companhia do lorde Kamiizumi, encontrei-me duas ou três vezes com ele e cheguei a beber em sua companhia. Mas ultimamente a casa entrou em decadência, ao que parece. Não posso, porém, fazer pouco e dar com a porta na cara deste insolente, já que é filho de Kenpo. Por outro lado, se o ansioso filhote insistir em duelar, não podemos derrotá-lo e mandá-lo embora sem mais nem menos.

— Esse Denshichiro me parece muito seguro de si e, uma vez que insiste, posso cuidar dele pessoalmente. Que achais, senhor?

— Não, não, deixa isso de lado. Filhinhos de gente famosa costumam ser presunçosos, logo se melindram. Se tu o derrotares e o mandares embora, com certeza sairá por aí falando mal de nós. Eu já estou acima dessas picuinhas, mas Munenori e Toshitoshi ainda são vulneráveis.

— Qual é o vosso plano, então?

— Seja como for, será melhor tratá-lo com o respeito devido a descendentes de casas famosas, adulá-lo e mandá-lo embora. E nesse tipo de missão, um mensageiro do sexo masculino sempre desperta antagonismo.

— Voltou-se então para Otsu. — Acho que darás uma ótima mensageira. És a que melhor se qualifica para esta missão.

— Sim senhor, irei com todo o prazer — disse Otsu.

— Mas não convém ir imediatamente. Vai amanhã — recomendou Sekishusai.

Virou-se a seguir e escreveu uma carta com a fluida caligrafia dos praticantes da arte do chá. Dobrou-a então em uma tira fina, retirou do vaso o galho de peônia que acabara de arranjar e nele atou a carta, entregando-os a Otsu:

— Leva isto e diz: Sekishusai acha-se indisposto por ter contraído um resfriado e aqui estou em seu lugar com a resposta. Vejamos como reage.

V

Cedo, na manhã seguinte, Otsu despediu-se do idoso suserano levando na mão sua mensagem. Envolta em um longo véu que a cobria desde a cabeça, dirigiu-se às cocheiras na trincheira externa do castelo e pediu ao encarregado que limpava a área:

— Gostaria que me cedesse um cavalo, por favor.

— Olá, Otsu-san! Aonde vai? — perguntou o cocheiro.

— À Hospedaria Wataya, no povoado, levar um recado do grão-senhor.

— Nesse caso, vou acompanhá-la.

— Não se dê ao incômodo.

— Sabe montar?

— Gosto de cavalgar. Estou habituada aos cavalos, pois me criei no interior e brincava muito com os campeiros.

Envolta em véu rosado, Otsu seguiu cavalgando com naturalidade. Nas cidades grandes, o véu caíra em desuso entre as mulheres da nobreza mas, nas províncias, ainda era bastante apreciado pelas mulheres da classe média e das famílias mais finas.

Ao avistar a graciosa figura de Otsu levando numa das mãos a carta atada a um galho de peônia prestes a desabrochar, e com a outra controlando facilmente as rédeas, os homens nas lavouras a acompanhavam com o olhar comentando entre si:

— Ali vai Otsu-sama.

— Então essa é a Otsu-sama!

O fato de em tão curto espaço de tempo seu nome ter-se propagado no meio dos camponeses atestava uma vez mais que entre estes e Sekishusai havia um relacionamento muito cordial, diferente da habitual relação rígida existente entre senhores feudais e lavradores. Ao saber que nos últimos tempos uma linda jovem flautista servia ao velho senhor, os camponeses haviam estendido à pessoa de Otsu a amizade e o respeito que nutriam por seu suserano.

Dois quilômetros adiante, Otsu perguntou a uma camponesa que lavava panelas nas águas de um riacho:

— Onde fica a Hospedaria Wataya?

A mulher, que embalava um bebê atado às costas, abandonou o serviço e disse, tomando a frente do cavalo:

— Wataya? Eu a levo até lá. Otsu interveio:

— Não é preciso levar-me até lá. Basta que me indique a direção a seguir.

— Que nada! É pertinho! — respondeu a mulher. Mas o pertinho correspondeu a quase um quilômetro, quando enfim a mulher parou e disse:

— É aqui.

Otsu agradeceu e desmontou, atando o cavalo a um mourão perto do alpendre.

— Seja bem-vinda! Vai pousar uma noite? — perguntou Kocha aproximando-se.

— Não. Quero falar com Yoshioka Denshichiro-sama, hospedado nesta casa. Trago uma mensagem de Sekishusai-sama — respondeu Otsu.

Kocha correu a avisar e logo retornou, dizendo:

— Entre, por favor.

Viajantes de partida que se azafamavam à entrada da hospedaria, atando sandálias e ajeitando trouxas às costas, voltavam-se para ver a figura esguia e elegante de Otsu, que seguia Kocha. Seu tipo físico, raramente encontrado no interior, causava admiração. Sussurravam entre si:

— Quem será?

— Quem ela veio ver?

Yoshioka Denshichiro e seus companheiros haviam bebido até altas horas na noite anterior e acabavam de se levantar. Ao saber que havia um mensageiro da casa Yagyu, imaginaram tratar-se do mesmo samurai barbudo do dia antecedente e foram pegos de surpresa quando à entrada do quarto surgiu a delicada figura de Otsu com um galho de peônia na mão.

— Ah, mas o aposento está em desordem — desculpou-se Denshichiro, visivelmente embaraçado. Trataram incontinente de ajeitar não só o quarto, como também as próprias roupas desalinhadas e, por fim, convidaram:

— Entre, entre. Sente-se, por favor.

VI

— Vim a mando do suserano de Koyagyu — disse Otsu. Depositou cerimoniosamente o galho de peônia diante de Denshichiro e acrescentou:

— Há um bilhete para o senhor. Leia-o, por favor. Denshichiro desatou a carta murmurando:

— Um bilhete… — A mensagem, escrita em tinta aguada e caligrafia fluida, típicas dos adeptos da arte do chá, dizia:

Ao senhor Denshichiro e comitiva:

Saudações.

Idoso e constantemente atormentado por mazelas, peguei há

alguns dias um incômodo resfriado. Mando-lhes escusas e esta

flor por intermédio de outra flor, por julgar que a visão de uma

singela peônia se preste mais que a do nariz ranhoso de um

velho para suavizar as agruras dos cavalheiros em viagem.

Não se riam deste pobre velho que, longe do burburinho do

mundo, submergiu em profunda reclusão e não tem ânimo sequer

para elevar a cabeça acima das plácidas águas do isolamento em que vive.

Sekishusai


— Só isso? — perguntou Denshichiro, dobrando novamente a carta e fungando para ocultar a frustração.

— O suserano disse-me também que lhe transmitisse verbalmente o seguinte: que gostaria muito de entretê-lo realizando uma cerimônia do chá mas, infelizmente, está rodeado de rudes guerreiros e não conta com nenhum mais preparado, pois até seu filho Munenori está em Edo, chamado como foi pelo xogum Tokugawa. Teme, portanto, que ocorra algum deslize, o que seria sem dúvida uma indelicadeza para com os senhores e poderia, além disso, transformar a casa Yagyu em motivo de chacota no meio de tão distintos cavalheiros «indos da capital. Espera ter a honra de encontrar-se com os cavalheiros eu uma próxima oportunidade. Denshichiro olhou-a desconfiado e disse:

— Sei… Mas pelo que ouço, Sekishusai-sama parece ter entendido que estamos pedindo uma demonstração de sua habilidade numa cerimônia do chá. Contudo, a arte do chá não nos interessa, pois somos todos filhos de guerreiros. Estamos apenas pedindo que nos permita brindar à sua boa saúde em sua companhia e que nos dê uma pequena aula de artes marciais, aproveitando o ensejo.

— Sua senhoria compreendeu perfeitamente. No entanto, sua senhoria escolheu passar os últimos anos que lhe restam de vida contemplando a natureza e habituou-se a se expressar usando termos relacionados à arte do chá.

— Nesse caso, não tenho como insistir — replicou Denshichiro, com desagrado. —Transmita-lhe então que quero vê-lo sem falta numa oportunidade próxima — acrescentou, devolvendo rispidamente o ramo de peônia.

— Quanto a esta flor — ressaltou Otsu — sua senhoria pede que a leve em um canto da liteira ou amarrada à sela do seu cavalo; espera que a visão da mesma amenize o desconforto da viagem de retorno à sua cidade.

— Quê? Ele quer me dar esta flor de presente? — escandalizou-se Denshichiro. Empalideceu de leve e baixou o olhar como se tivesse acabado de ouvir uma reprimenda. — Que tolice! Diga a ele que também temos nossas peônias, em Kyoto!

Impossibilitada de insistir, Otsu apanhou a peônia e replicou:

— Nesse caso, assim transmitirei quando retornar ao castelo.

Apresentou as despedidas com palavras rápidas e cuidadosas para não irritar ainda mais o já melindrado Denshichiro e saiu para o corredor.

Ofendidos — assim pareceu — nenhum dos homens a acompanhou. Fora do aposento, Otsu não se conteve e sorriu disfarçadamente. Alguns quartos além, no mesmo corredor, hospedava-se Musashi, havia já quase dez dias no povoado. Otsu lançou um olhar nessa direção pelo longo e brilhante corredor de tábuas escuras, mas voltou-se para o lado oposto e dirigiu-se à saída dos fundos da hospedaria. Nesse instante, um vulto no interior do aposento de Musashi se levantou e saiu para o corredor.

VII

Passos apressados soaram às suas costas e uma voz a interpelou:

— Já vai embora?

Otsu voltou-se e deparou com Kocha, a menina que a havia conduzido à sua chegada.

— Vou. Já cumpri a missão — respondeu Otsu.

— Que rápido! — admirou-se a menina. Espiou a flor em sua mão e falou: — Esse botão vai dar uma peônia branca quando desabrochar?

— Isso mesmo. É do jardim do castelo. Quer? — ofereceu Otsu.

— Quero! — disse Kocha, estendendo a mão. Otsu pôs a flor em sua mão e se despediu:

— Até logo.

Usando o alpendre, montou com agilidade e envolveu o corpo esguio no véu. Kocha gritou:

— Apareça de novo!

A seguir, circulou orgulhosa pela hospedaria exibindo a flor aos empregados, mas ninguém lhe elogiou a beleza. Desapontada, levou-a ao quarto de Musashi e perguntou:

— Gosta de flores, senhor?

— Flores? — repetiu Musashi, voltando-se. Estava à janela, queixo apoiado na mão, e contemplava o castelo de Koyagyu, o olhar absorto.

Pensava nesse exato momento: “Que fazer para me aproximar dessa veneranda figura, Sekishusai? Como me entrevistar com ele? E como golpear o velho dragão sagrado, o magistral esgrimista?”

— Mas é uma bela flor! — observou ele.

— Gostou? — insistiu Kocha.

— Bastante — disse Musashi.

— É um botão de peônia. Uma peônia branca.

— Aproveite e faça um arranjo com ela naquele vaso — pediu Musashi.

— Mas não sei como fazer. Arranje-a o senhor, será melhor.

— Pelo contrário, você, com a sua ingenuidade, obterá um resultado melhor.

— Então vou encher de água a vasilha — disse Kocha, levando o vaso e se afastando.

O olhar de Musashi incidiu casualmente sobre a flor, esquecida ao seu lado e, de súbito, fixou-se na marca do corte feito no galho. Inclinou a cabeça pensativo, sem conseguir desviar o olhar, a atenção retida. Finalmente, estendeu o braço, apanhou a peônia e aproximou-a de si. Examinou com cuidado não a flor, mas a incisão no galho, no ponto em que este fora cortado.

— Ih, ui, ai! — vinha exclamando Kocha pelo corredor, cada vez que a água transbordava e caía do vaso. Entrou no aposento, depôs o vaso no nicho central e nele enfiou a flor descuidadamente.

— Ih, não ficou bom, senhor! — observou Kocha percebendo, apesar de toda a sua ingenuidade, o resultado deselegante.

— Tem razão. É o galho, comprido demais para o vaso. Muito bem, traga-o aqui que o corto no comprimento certo — disse Musashi.

Kocha trouxe a flor e o vaso para perto de Musashi. — Segure o galho sobre o vaso e mantenha-o na posição em que as flores costumam brotar do chão — ordenou Musashi.

Kocha seguiu à risca as instruções, segurando o galho firmemente com as duas mãos. De repente, soltou um grito agudo, jogou a flor no chão e começou a chorar, atemorizada.

Não era para menos. O recurso empregado por Musashi para cortar o delicado galho fora drástico demais. Num movimento tão rápido e inesperado que Kocha nem chegara a ver, Musashi lançara mão da espada curta presa em seu quadril esquerdo, soltara um kiai agudo e repusera instantaneamente a lâmina na bainha, que se ajustara com um estalido; na mesma fração de segundo, um raio prateado passara entre as mãos de Kocha, que sustinha o galho.

Musashi nem se preocupou em consolar a garota que chorava, apavorada. Absorto, comparava no toco as marcas dos dois cortes, o original e este último, feito por ele mesmo.

VIII

Instantes depois Musashi caiu em si e pôs-se a consolar Kocha, que soluçava desconsolada:

— Ora, ora, eu a assustei. Desculpe-me — pediu, acariciando-lhe os cabelos. — Mas me diga: você sabe de onde veio esta flor?

— Eu a ganhei — explicou Kocha, recuperando a calma afinal.

— De quem?

— De uma pessoa que veio do castelo.

— Um vassalo do suserano Yagyu?

— Não senhor, uma mulher.

— Sei… Nesse caso, deve ser uma flor do jardim do castelo…

— Acho que sim.

— Desculpe a minha brutalidade, Kocha. Mais tarde, eu lhe compro uns doces. O galho agora está no tamanho certo, veja. Ponha-a no vaso — disse Musashi.

— Assim?

— Isso mesmo. Perfeito!

Mal terminou, Kocha desapareceu. Aparentemente, o brilho da espada de Musashi, o “tio” que sempre julgara divertido e bonachão, metera-lhe medo.

O olhar e a atenção de Musashi, indiferentes à flor que agora sorria num vaso no nicho central do aposento, continuavam presos às marcas dos dois cortes no toco de aproximadamente 20 centímetros, caído à sua frente.

O corte original não fora obra de uma tesoura ou de uma adaga, pelo aspecto. Musashi percebia a ação de uma espada de respeitável qualidade na minúscula marca deixada no macio caule da peônia. Além disso, percebia que a marca não fora produzida por um golpe simples: ali brilhava a magistral habilidade da pessoa que cortara o galho. Musashi havia tentado imitar usando a própria espada mas, comparando os dois cortes cuidadosamente, notava diferenças. Nada de concreto que pudesse apontar mas sentia, com honestidade, algo bem inferior no seu, o mesmo tipo de diferença que poderia notar nas marcas deixadas por uma goiva em diferentes imagens de Buda, uma esculpida por um artista vulgar, e outra por um mestre escultor.

“Se um simples jardineiro do castelo é capaz de um corte como este, a potencialidade real do clã Yagyu talvez seja muito superior ao que se diz por aí”, pensou.

Seguindo essa linha de raciocínio, chegou à conclusão de que se superestimava. Sentiu-se

humilde por um momento, mas logo superou esse sentimento com outro raciocínio:

— Não pode haver melhor adversário. Se eu for derrotado, resta-me apenas tombar a seus pés. Mas temer o quê, se estou pronto até a dar a minha vida…

O corpo esquentava, pleno de combatividade. Uma grande ambição

pulsava no jovem peito.

Faltava-lhe apenas uma estratégia de aproximação.

— Sekishusai-sama não recebe nenhum aprendiz itinerante. Não há qualquer possibilidade de recebê-lo, mesmo que leve uma apresentação — dissera-lhe o dono da hospedaria. O filho Munenori estava em Edo, seu neto Toshitoshi numa província distante. Se quisesse passar por esta província derrotando a casa Yagyu, não lhe restava outra alternativa senão concentrar o

alvo em Sekishusai.

“De que jeito?”, perguntava-se. Seus pensamentos haviam retornado à primeira questão, ao mesmo tempo em que o ímpeto selvagem de domínio se abrandava. Seu pulso recuperou o ritmo normal e o olhar voltou-se para a flor pura no nicho central do aposento.

Enquanto fitava a flor, lembrou-se de chofre de alguém muito parecido com ela: Otsu. Em seu espírito, habitualmente solitário e árido, surgiu o suave rosto de Otsu pela primeira vez em muito tempo.

08/08/2010 – A árvore da serra- Augusto dos Anjos

— As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho…
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pos almas nos cedros… no junquilho…
Esta árvore, meu pai, possui minh’alma! …

— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
«Não mate a árvore, pai, para que eu viva!»
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!


04/08/2010- Reflexão Zen

Da base da montanha pode se iniciar muitos caminhos diferentes, mas todos eles levam ao mesmo pico da mesma montanha para apreciar o mesmo luar.

03/08/2010 – Hagakure – Yamamoto Tsunetomo

A coisa mais importante de sua vida é o objetivo que você persegue no presente momento. Toda a vida de um homem se apresenta como uma sucessão de momentos. Se você conseguir entender isso, não existirá nada mais a ser feito, nada mais a almejar. Viva sendo fiel ao objetivo do momento.

As pessoas deixam escapar as oportunidades do momento presente, e depois as procuram como se estivessem em outro lugar. Ninguém parece perceber isso. Porém quando conseguem agarrá-las, começam a acumular experiências. A partir do momento em que nos damos conta desse fato, tornamo-nos pessoas diferentes, mesmo que não estejamos atentos a essa mudança.

02/08/2010- Sidarta – Hermann Hesse

– Há uma coisa, ó Venerabilíssimo Gotama, perfeito Buda – disse Sidarta – que despertou em mim especial admiração, logo que conheci a tua doutrina. Nessa doutrina, tudo fica completamente claro.Tudo é demonstrado. Tu mostras o mundo sob a forma de uma corrente perfeita, jamais e nenhures interrompida, corrente eterna, constituída de causas e efeitos. Nunca, em parte alguma, isso se percebeu com tamanha nitidez, nem tampouco foi exposto, tão irrefutavelmente. Realmente, os corações de todos os brâmanes deverão vibrar de alegria, quando seus olhos enxergarem o cosmo através de tua doutrina, esse cosmo que forma um conjunto inteiriço, sem lacunas, límpido como cristal, não dependente nem do acaso nem dos deuses. Se o mundo é bom ou mau, se a vida em seus confins é sofrimento ou prazer, essa pergunta pode permanecer sem resposta. Mas a unidade do mundo, o nexo existente entre todos os acontecimentos, o fato de todas as coisas, tanto as grandes como as pequenas, estarem incluídas no mesmo decorrer, na mesma lei das causas, do devir e do morrer… tudo isso, ó Augusto, ressalta luminosamente, na tua excelsa doutrina. Mas, nessa mesma doutrina, há um único lugar em que tal unidade e lógica das coisas estejam interrompidas. Por uma minúscula lacuna penetra na unidade desse mundo um elemento estranho, novo, que antes não existiu, que não pode ser mostrado nem comprovado. Refiro-me à tua tese acerca da possibilidade de superarmos o mundo e alcançarmos a redenção. Ora,essa pequeníssima lacuna, essa brechazinha, basta para destruir e liquidar toda a unidade e eternidade da lei cósmica. Perdoa-me a audácia de ter feito esta objeção.

Silencioso, impassível, escutara Gotama. A seguir falou o Homem Perfeito, na sua voz delicada e clara:– Ouviste a doutrina, ó filho de brâmane, e honra-te teres meditado profundamente a seu respeito. Encontraste nela uma lacuna, uma falha. Continua a refletir sobre ela. Permite-me, porém, ó moço ávido de saber, que te advirta do emaranhamento das opiniões e da disputa acerca das palavras. Pouco valor têm as opiniões, sejam elas lindas ou feias, sensatas ou estúpidas. Qualquer um pode agarrar-se a elas ou também refutá-las. Mas a doutrina que ouviste da minha boca não é nenhuma opinião e não tem o propósito de explicar o mundo a pessoas ávidas de saber. Seu desígnio é a redenção do sofrimento. O que Gotama ensina é ela e nada mais.

– Não tenhas rancor contra mim, ó Augusto – disse o jovem. – Não me dirigi a ti para discutir contigo, para provocar uma disputa em torno de palavras. Deveras tens razão: pouco valor têm as opiniões. Mas, com tua licença, direi mais uma coisa: não duvidei de ti nenhum instante. Não duvidei em absoluto de que és o Buda, de que alcançaste o objetivo supremo a cuja busca se encaminharam tantos milhares de brâmanes e filhos de brâmanes. Obtiveste a redenção da morte! Ela te coube em virtude do teu próprio empenho, pelo método que é teu, pelo pensamento, pela meditação, pelo conhecimento, pela iluminação. Não a conseguiste através da doutrina! E… eis o meu raciocínio, ó Augusto… ninguém chega à redenção mediante a doutrina! A pessoa alguma, ó Venerável, poderás comunicar e revelar por meio de palavras ou ensinamentos o que se deu contigo na hora da tua iluminação! Ela contém muita coisa, a doutrina do esclarecido Buda. A númerosas pessoas indica o caminho para uma vida honesta, afastada do Mal. Mas há uma única coisa que não se acha nessa doutrina, por mais clara e veneranda que ela seja. Não nos é dado saber o segredo daquela experiência que teve o próprio Augusto, só ele entre centenas de milhares de homens. São esses os pensamentos e as percepções que me vieram, quando ouvi a doutrina. Por isso, hei de prosseguir na minha peregrinação, não para ir à procura de outra doutrina melhor, já que sei muito bem que não há nenhuma, senão para separar-me de quaisquer doutrinas e mestres, a fim de que possa alcançar sozinho o meu destino… Contudo me lembrarei freqüentemente deste dia, ó Sublime, e desta hora, na qual um santo se deparou aos meus olhos.

01/08/2010 – Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança;

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto,

Que não se muda já como soía.


31/07/2010 – Há um poema do Fernando Pessoa  – em sua atualização denominada de Alvaro de Campos – que me volto constantemente em reflexão, embora não me anime em traçar cordas para além dele mesmo, como se me bastasse lê-lo para individuar um estado de espírito. Sim, porque embora a questão importante seja o ‘se tornar’, ainda sim há máquinas que nos conduzem à ‘singularização do tempo’, e essa em especifico faz isso. Lá vai:

Álvaro de Campos, 15-1-1928-

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.

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One comment

  1. Gil, parabéns pelo blog. Conheci pelo Shiro aqui do Kendo de Bauru.
    Belissimo trabalho.
    Grande abraço.

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